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Brasil supera a marca de 100 mil mortos por Covid-19. O que isso representa?

No último sábado (8), o Brasil atingiu a trágica marca de 100 mil mortes por Covid-19 notificadas. O número assustador é um atestado de falta de capacidade dos governantes em coordenar ações efetivas de combate ao Coronavírus.

É também fruto das esferas decisórias no Brasil ainda estarem acreditando no falso dilema entre saúde e economia, muitas vezes priorizando os interesses do capital, ignorando estudos feitos inclusive por intelectuais liberais que afirmam que a economia não tem como se recuperar sem a pandemia estar controlada. Mesmo assim, o poder econômico se sobrepõe à defesa da vida e da saúde.

O Brasil perdeu a oportunidade de se preparar para enfrentar a pandemia (ela demorou mais a chegar por aqui). Desde o começo, o Governo Federal não coordena ações efetivas, retém cerca de 70% da verba que deveria ser usada para a emergência sanitária e chega a quase 3 meses sem ministro efetivo, após duas trocas (convenientemente não há ministro para ser responsabilizado pela tragédia). Não há plano de isolamento social (forma de prevenção mais eficaz) e nem testagem em massa (que ajudaria na elaboração de políticas e na tomada de decisões).

Com posições desde chamar de “gripezinha” ou “resfriadinho”, “histeria”, dizer que “todos vamos morrem um dia”, ou ao ser questionado sobre a quantidade de mortos e responder com um “E daí? Lamento. Quer que eu faça o quê?”, e agora, ao responder sobre os 100 mil mortos: “vamos tocar a vida e se safar desse problema”, o presidente da República, Jair Bolsonaro, permence negando sua própria responsabilidade depois de 5 meses de pandemia, continua incentivando e participando de atos públicos em apoio a ele mesmo e faz propaganda para medicamentos que não possuem eficácia comprovada (e que são produzidos por indústrias farmacêuticas de seus apoiadores).

Segundo diversos estudos, os pouco mais de 3 milhões de casos confirmados não conferem com a realidade, já que estima-se uma absurda subnotificação, que é uma forma de esconder ou negar a abrangência da contaminação.

Entre 1º de fevereiro e 31 de julho, foram realizados apenas 2.135.487 exames laboratoriais para diagnóstico da Covid-19 na rede pública de Saúde. Ou seja, isso abrangeria apenas 1% da população brasileira.

Até mesmo entre profissionais da Saúde há dificuldade para se fazer testes, geralmente destinados para pacientes com sintomas de moderado a grave (e o Governo Federal retém armazenados milhões de testes).

O Brasil é o décimo país em proporção de contaminados, mas exceto os Estados Unidos, os outros oito são países minúsculos ou muito pequenos. Também é o décimo em proporção de mortos por milhão de habitantes (mas a gigantesca subnotificação influencia esses números e fazem parecer que o quadro não é tão grave). Além disso, o Brasil é um dos líderes em quantidade de profissionais de Saúde que morreram de Covid-19.

Há também mortes ocorridas no mês de junho que só agora estão sendo notificadas, o que demonstra que, mesmo com muito tempo para se preparar, a estrutura de testagem de algumas localidades é defasada.

A desigualdade social tem mostrado seu impacto durante a pandemia. A população mais fragilizada é a que foi mais atingida. Em grandes centros, a quantidade de mortes em comunidades pobres e favelas foi o dobro da média de outras localidades. Quando se trata de renda, a situação piora: em algumas regiões, 65% dos mortos eram pessoas que recebem menos de 3 salários mínimos.

Desde o começo da pandemia, o governo relutou em auxiliar as pessoas mais vulneráveis e só concedeu o auxílio emergencial de R$ 600,00 porque foi derrotado no Congresso (a proposta governista era R$ 200,00). O governo continua não querendo prorrogar a ajuda ou, caso prorrogue, quer reduzir para R$ 200,00).

Enquanto isso, o Governo Federal insiste em remédios e terapias sem efetividade alguma e ainda criou o infame “Placar da Vida”, focado em número de recuperados ou ainda comparando taxa de mortalidade com países minúsculos. Não é preciso muito esforço para perceber que o número de recuperados só é alto porque há muitos infectados. Isso não passa de marketing em cima do sofrimento da população. Além disso, é mais uma tática para incentivar o negacionismo (para se eximir da responsabilidade, mas que tem um efeito colateral gravíssimo: faz com que as pessoas deixem de adotar atitudes preventivas e é um dos motivos para o Brasil chegar a esse trágico patamar).

Por suas atitudes, o presidente da República foi denunciado por crimes contra a humanidade e genocídio no Tribunal Penal Internacional, com sede em Haia (Suíça), em ação apresentada por uma coalizão que representa mais de um milhão de trabalhadores da saúde no Brasil e apoiada por entidades internacionais.

 

Curva sobe no Paraná

Algumas pessoas relativizam o fato de o Paraná ter notificado em torno de 90 mil casos e ter cerca de 2,3 mil mortes. No entanto, os números seguem acelerando no estado, que repetiu nas semanas recentes recordes de infecções e mortes. Isso soma-se à autorização para abertura irresponsável de comércios não essenciais e indústrias em uma época do ano que as condições climáticas favorecem infecções respiratórias.

E há, claro, suspeita de subnotificação. Já foi notícia em diversos órgãos a alta de casos de Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG) no Paraná. Chegou-se a registrar mais de 500% de aumento. Muitas dessas pessoas não testadas estavam com sintomas similares aos da Covid-19.

 

Perspectiva?

Para o SindSaúde-PR, o Brasil é um exemplo do quanto a vida vale menos do que os interesses políticos e econômicos para grande parte dos governantes. Enquanto outros países adotaram medidas duras de isolamento social, e conseguiram começar a retomar as atividades econômicas muito mais cedo, o Brasil já chega a 5 meses de pandemia sem qualquer perspectiva de melhora.

Fonte: SindSaúde-PR